Para os estudantes de economia a disponibilidade dos conhecidos "manuais de economia monetária" possui nos dias de hoje uma oferta significativa no mercado editorial. Longe de considerar os manuais como ferramenta pedagógica inadequada, considera-se que os mesmos possuem um papel fundamental e organizador da matéria para os iniciantes. Embora se reconheça a limitação dos mesmos no que se refere ao aprofundamento e exposição de conteúdos realizados pelos autores em seus trabalhos originais, não se pode negar o alcance e o valor introdutório (propedêutico) dos mesmos na exposição preliminar e de divulgação. Não se quer aqui chegar ao cúmulo de fazer o que chegam os americanos - em certas circunstâncias - que remetem ao manual como se este fosse "a referência" do assunto, dispensando qualquer outra fonte. Bons e maus manuais estão em toda a parte. Todo manual padece de um certo aviltamento na sua condição de material didático sintético e condensado. Seu surgimento histórico remonta a transição da manufatura para a grande indústria, bem como a transição de uma mentalidade restritiva ao conhecimento na forma escrita para uma didática centrada numa ética protestante capitalista. Neste caso é vulgata que acaba sendo conhecimento vulgarizado, simplificado e fragmentado que, se por lado, amplia o acesso das massas à informação, por outro, limita e restringe o acesso às visões opostas e críticas alternativas, bloqueando o interesse pelas fontes mais ricas de um conhecimento cultural significativo. A citação a seguir resume bem este argumento:
[...] O livro didático é limitado e condicionado por razões econômicas, ideológicas e técnicas. A linguagem que produz deve ser acessível ao público infantil e juvenil e isso tem conduzido a simplificações que limitam sua ação na formação intelectual mais autônoma dos alunos. Autores e editores ao simplificarem questões complexas impedem que os textos dos livros provoquem reflexões ou possíveis discordâncias por parte dos leitores. Sua tendência é de ser um objeto padronizado, com pouco espaço para textos originais, condicionando formatos e linguagens, com interferências múltiplas em seu processo de elaboração associadas à lógica da mercantilização e das formas de consumo. (BITTENCOURT, 1998, apud CENTENO, 2009)
É obvio que alguns manuais universitários conseguem, ao menos, superar o limiar de mediocridade a que estão constrangidos. Digno de nota é, por exemplo, o clássico livro de economia monetária, os "Princípios de Economia Monetária" de Eugênio Gudin dos anos 1950. Num depoimento feito pela sua ilustre aluna, Maria da Conceição Tavares, vê-se que o trabalho do patrono da corrente neoliberal brasileira teria produzido um material didático importante
"De outro lado, o Eugênio Gudin tinha uma apostila sobre economia monetária, que é um ótimo livro. Eu aprendi economia com o livro do Gudin, que não tinha nenhum modelo matemático. Os clássicos também não tinham nenhuma equação"
Bielchovsky afirma ainda que livro-texto "Princípios de economia monetária" era um manual de referências teóricas para as análises concretas da economia brasileira, sendo que sua estrutura reflete seu envolvimento com a ciência econômica, ainda que Gudin não fosse de fato o que se define usualmente como economista teórico. Apesar de tudo, o livro-texto, Princípios de economia não consiste num trabalho de um autor quantitativista ortodoxo. Em verdade, tinha-se neste trabalho algo que as gerações posteriores iriam fazer através de obras propedêuticas, com graus distintos de complexidade. Este aspecto caminha ao lado do que o Prof. Carlos Lessa destaca em sua análise do processo de evolução do economista profissional. Se no século XIX a presença e onipresença - ou mesmo - o quase exclusivismo dos juristas e bacharéis de direito no poder era a regra, do governo militar pós-1964 até os dias de hoje os economistas são os auxiliares do Príncipe, o símbolo do poder constituído. Os "operadores de política econômica" vão necessitar de suas referências manualizadas, sendo que o livro de Gudin é uma espécie de precursor destas obras. Podemos dizer que nos dias de hoje há até um excesso, através do retorno à uma espécie de bacharelismo refundindo o patrimônio do cargo público com o exercício de funções de ensino superior, onde a retórica eloqüente e o livresco superficial torna-se aceito culturalmente na sociedade em detrimento de análises mais profundas da realidade concreta.
Entrementes, a disponibilidade de manuais "autorais" ou resultante de produção coletiva tornou-se profusa e significativa, seja pela tradução de manuais estrangeiros ou por autores nacionais. A exemplo disso, temos os livros Economia Monetária e Financeira: uma abordagem pluralista, Ed. Makron Books (ver link de resenha mais abaixo) do Prof. Fernando Nogueira da Costa, como também o livro organizado pelo Prof. Fernando Cardim e outros Professores - Economia Monetária e Financeira: Teoria e Política, Campus-Elsevier e, mais recentemente, foi publicado Economia Monetária - uma abordagem Brasileira do Prof. José Roberto Novaes de Almeida, Ed. Atlas. disto. Com efeito, todo manual irá refletir escolhas e posições teóricas dos autores e grupos em questão. Nenhum manual é "completo" per si e o melhor conselho que se pode dar aos estudantes é que eles manuseiem literalmente todos os manuais que lhe caírem nas mãos (desculpem tanta redundância!). Os limites e possibilidades de cada um irão se refletir neste diálogo possível entre os livros, quando os leitores fazem análises, comparações e permitem que ocorra um debate, sempre mediado pela leitura coletiva.
Pois então, faça-se o uso dos manuais de modo correto, o portal de entrada dos neófitos ou, como disse o poeta, "Ó menina vai ver nesse almanaque /como é que isso tudo começou/Diz quem é que marcava o tic-tac/e a ampulheta do tempo disparou..."
Referências
Lessa, Carlos "A preeminência profissional e o Estado brasileiro: dos juristas aos economistas", in Mary Dei Priore (org.) Revisão do paraíso: os brasileiros e o Estado em 500 anos de história Rio de Janeiro, Campus, 2000.
Centeno, Carla Villamaina. O conhecimento histórico vulgarizado: a “ditadura” do manual didático, Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.33, p.169-178, mar.2009, 169-178.
Link com a resenha do livro "Economia Monetária e Financeira: uma abordagem pluralista de Fernando Nogueira da Costa.
http://www.uff.br/revistaeconomica/v1n1/paula.pdf
Link com o prefácio à primeira e segunda edição do livro "Economia monetária financeira : teoria e política" mais o sumário de capítulos, organizado por Fernando J. Cardim de Carvalho e outros.
http://joaosicsu.org/sumarios/Economia%20Monetaria%20e%20Financeira%202ed.pdf


Nenhum comentário:
Postar um comentário