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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Resenha - Sobre a estrutura da teoria da política monetária - parte I : moeda em circulação x moeda retida de Victoria Chick



O capítulo 7 do recém-lançamento da Editora Unicamp nos traz um artigo da Victoria Chick que revela um interesse particular em termos de teoria comparada. Na realidade, este capítulo corresponde ao artigo "On the Structure of the Theory of Monetary Policy”,  reunido nesta coletânea de estréia de uma série sobre macroeconomia heterodoxa ou crítica. As preocupações e intervenções da autora pertencente ao grupo pós-keynesiano são de corte metodológico, sempre chamando para a cena analítica a dimensão histórica da teoria e de sua pertinência. A este respeito, outra pós-keynesiana conhecida, a Sheila Dow é bem precisa a respeito da metodologia pós-keynesiana. Assim, em termos gerais, a metodologia econômica estaria preocupada com a escolha dos métodos analíticos e os meios de escolha entre teorias competindo entre si. Os economistas do mainstream (neoclássicos) consideram que o método de análise é o formalismo matemático e a escolha teórica deve recair sobre a melhor predição.  Clareza e precisão permitem a comparação teórica pelo formalismo e as boas teorias são escolhidas pela sua maior capacidade de previsão face às más teorias. Mas o projeto pós-keynesiano reclama o realismo das hipóteses, nem sempre guardadas pelos axiomas e sua tradução formalizada. Sob esta última condição, Friedman e Popper convergem ao exigir - ao contrário do paradigma pós-keynesiano - o teste da teoria através do refutacionismo*.  Se  para um o que vale é "ciência positiva", simetricamente, para outro, "o domínio empírico da pesquisa" é o lugar de verificação protocolar de toda verdade científica. 
K.Popper


O formalismo torna-se uma exigência lógica que penetra profundamente o que se chama hodiernamente  de "sistemas fechados". Esta limitação conduz ao que Chick utiliza como argumento para explicitar a corrupção do debate "monetarista - keynesiano", ou seja, uma falsa dicotomia que confunde as teorias e os fatos nelas imiscuídos e as suas manifestações estruturais teóricas.
M. Friedman

Os denominados "mecanismos de transmissão" da política monetária seriam assim constructos que indevidamente ocupam o locus analítico do que é relevante do ponto de vista propriamente teórico. Como exemplo, a suposta ação da moeda no "setor real" mediada pela taxa de juros (keynesianos) ou diretamente sobre a renda (monetaristas) converte-se em questão de somenos importância. Esta visão mecanicista da moeda é fortemente resguardada nos manuais e livretos de referência e está presente na literatura de economia monetária (Mishkin, 1996) desde os modelos tradicionais keynesianos IS-LM chegando-se aos mecanismo de crédito e outros ativos financeiros. É interessante notar que até filmes documentários atuais, como o Zeitgeist Addendum, apresentam toda a cadeia de transmissão da moeda e de sua criação de crédito ex nihilo por meio desta mecânica monetária.

Na análise da estrutura lógica de diferentes teorias sobre a demanda de moeda (TQM, Keynes, IS-LM, Tobin-Brainard, Radcliffe e Friedman) passa-se de uma relação fluxo-fluxo a uma relação estoque-estoque. A autora propõe uma saída em seu approach metodológico que nas suas próprias palavras "deixaria biólogos contentes", pois os híbridos destes sistemas e modelos seriam como são na natureza, mais robustos. A fragilidade quantitativa clássica dos "puros fluxos" como o seu resgate radicalizado de "puro estoque" são soluções de canto, sem força maior. Nem mesmo o híbrido keynesiano é uma boa combinação a seu ver. Sua construção se deu num contexto de refutação da teoria clássica dos fundos emprestáveis e da experiência catastrófica do mercado acionário de sua época, logo antes da publicação da Teoria Geral. Noutros termos, os requisitos históricos institucionais tão ciosamente apreciados por Chick, ficam de certo modo deslocados pela necessidade de soluções pragmáticas, criadas para  atender os imperativos da hora. Desta forma, o finance motive - fundo rotativo de ativos líquidos que é providenciado pelo sistema à economia- e outros conceitos fundamentais para a compreensão e integração do financiamento macroeconômico surge nos debates com Ohlin, o qual chama atenção para esta dimensão inconclusa da teoria de Keynes, o qual insere o já supracitado motivo à teoria da preferência pela liquidez. Todavia, este último não se confunde com poupança-ex ante. 

Para concluir, cabe então considerar o que a própria Chick vem trazendo para a sua fronteira de pesquisa como metodóloga.  A idéia de "sistema aberto" é extremamente oportuna quando a maioria do conhecimento econômico se faz sob a égide dos "sistemas fechados". A Teoria Geral seria uma experiência que trouxe a macroeconomia à luz por ter esta virtude. São os sistemas  abertos que possibilitam a influência da história, sempre um fechamento  parcial e provisório. Desta  forma, uma teoria pertinente na compreensão dos fenômenos advindos com a revolução industrial perderá sua acuidade na explicação atual de processos que se desenvolvem sob o capitalismo globalizado  e comandado pela lógica  financeira. 

Só nos resta desejar boa leitura!

Segue um Link para o artigo "Sobre Sistemas Abertos" publicado na Revista da Sociedade  Brasileira de Economia Política, Rio de Janeiro, nº 13, p. 7-26, dezembro 2003. 


Referências 

Dow, Shelia. “Post Keynesian Methodology.” pp. 11-20 in A New Guide to Post Keynesian Economics. Richard P. F. Holt and Steven Pressman, eds. New York: Routledge, 2001.


Mishkin, F. S(1996). « Les canaux de transmission monétaire : leçons pour la politique monétaire », Bulletin de la Banque de France, vol. 27, p. 91-105. < http:www.banque-france.fr/fr/bulletin/main.htm.

Nadeau, Robert.  Friedman’s Methodological Stance and Popper’s Situational Logic,  Methodus Vol.4, No.1 (June 1992), pp. 118-25





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