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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Campus universitário em decomposição: pesquisadora francesa discute o território do campus como um "corpo doente", moral e fisicamente

A desertificação do campus universitário é um fenômeno cíclico. A ideologia urnana sobre o campus universitário francês que remonta os anos 1960 marcou época. Nos dias de hoje, mesmo após intervenções que tentaram aperfeiçoar suas condições arquitetônicas e urbanísticas, melhorando suas conexões, retirando-o do isolamento, o território do campus, segundo a arquiteta Florence Lipsk, é um corpo doente e seus males continuam antigos, moral e fisicamente considerados. O sentimento de pertencer a Universidade não é compartilhado nem por estudantes nem por professores, com exceção dos institutos politécnicos.

Lauréate du prix de l’équerre d’argent 2005 pour la bibliothèque du campus de La Source, à Orléans, Florence Lipsky prépare une thèse universitaire sur les campus.
Florence Lipsky é arquiteta e professora da Escola de Arquitetura da Cidade e dos Territórios em Marne la Vallée.


Para Lipsky o território da universidade deveria ser o lugar do aprendizado em todos os sentidos e a questão do campus é a mesma da cidade. O elo essencial entre território e docência se dá quando a criação de um campus ultrapassa a mera ligação entre um lugar e  a cidade. Deve-se pensar o território da Universidade em sua dimensão fundamentalmente cultural e educativa, criando condições da melhor aprendizagem. O Campus é um território específico, uma cidade complexa - a relação entre cidade e Campus é a de arquipélago. O Campus tem sua identidade própria, sem ser incompatível com a cidade em que ele está conectado. A chegada de novas tecnologias - os computadores individuais e a internet - faz com que cada um se pergunte sobre os lugares de reunião e aproximação humanas. O local, a materialidade do campus não o impede de ser global. O solo, o terreno,  é fundamental para todo indivíduo, para os estudantes, os pesquisadores e as demais pessoas. Neste momento o universitário francês vê-se diante de uma realidade onde a mentalidade de locatário irresponsável deve ser superada pela de habitante pertinente. 
Plan général du futur campus Condorcet-Paris-Aubervilliers, des architectes Lipsky et Rollet.MINISTÈRE DE L'ENSEIGNEMENT SUPÉRIEUR ET DE LA RECHERCHE/LIPSKY+ROLLET

Resenha - Sobre a estrutura da teoria da política monetária - parte I : moeda em circulação x moeda retida de Victoria Chick



O capítulo 7 do recém-lançamento da Editora Unicamp nos traz um artigo da Victoria Chick que revela um interesse particular em termos de teoria comparada. Na realidade, este capítulo corresponde ao artigo "On the Structure of the Theory of Monetary Policy”,  reunido nesta coletânea de estréia de uma série sobre macroeconomia heterodoxa ou crítica. As preocupações e intervenções da autora pertencente ao grupo pós-keynesiano são de corte metodológico, sempre chamando para a cena analítica a dimensão histórica da teoria e de sua pertinência. A este respeito, outra pós-keynesiana conhecida, a Sheila Dow é bem precisa a respeito da metodologia pós-keynesiana. Assim, em termos gerais, a metodologia econômica estaria preocupada com a escolha dos métodos analíticos e os meios de escolha entre teorias competindo entre si. Os economistas do mainstream (neoclássicos) consideram que o método de análise é o formalismo matemático e a escolha teórica deve recair sobre a melhor predição.  Clareza e precisão permitem a comparação teórica pelo formalismo e as boas teorias são escolhidas pela sua maior capacidade de previsão face às más teorias. Mas o projeto pós-keynesiano reclama o realismo das hipóteses, nem sempre guardadas pelos axiomas e sua tradução formalizada. Sob esta última condição, Friedman e Popper convergem ao exigir - ao contrário do paradigma pós-keynesiano - o teste da teoria através do refutacionismo*.  Se  para um o que vale é "ciência positiva", simetricamente, para outro, "o domínio empírico da pesquisa" é o lugar de verificação protocolar de toda verdade científica. 
K.Popper


O formalismo torna-se uma exigência lógica que penetra profundamente o que se chama hodiernamente  de "sistemas fechados". Esta limitação conduz ao que Chick utiliza como argumento para explicitar a corrupção do debate "monetarista - keynesiano", ou seja, uma falsa dicotomia que confunde as teorias e os fatos nelas imiscuídos e as suas manifestações estruturais teóricas.
M. Friedman

Os denominados "mecanismos de transmissão" da política monetária seriam assim constructos que indevidamente ocupam o locus analítico do que é relevante do ponto de vista propriamente teórico. Como exemplo, a suposta ação da moeda no "setor real" mediada pela taxa de juros (keynesianos) ou diretamente sobre a renda (monetaristas) converte-se em questão de somenos importância. Esta visão mecanicista da moeda é fortemente resguardada nos manuais e livretos de referência e está presente na literatura de economia monetária (Mishkin, 1996) desde os modelos tradicionais keynesianos IS-LM chegando-se aos mecanismo de crédito e outros ativos financeiros. É interessante notar que até filmes documentários atuais, como o Zeitgeist Addendum, apresentam toda a cadeia de transmissão da moeda e de sua criação de crédito ex nihilo por meio desta mecânica monetária.

Na análise da estrutura lógica de diferentes teorias sobre a demanda de moeda (TQM, Keynes, IS-LM, Tobin-Brainard, Radcliffe e Friedman) passa-se de uma relação fluxo-fluxo a uma relação estoque-estoque. A autora propõe uma saída em seu approach metodológico que nas suas próprias palavras "deixaria biólogos contentes", pois os híbridos destes sistemas e modelos seriam como são na natureza, mais robustos. A fragilidade quantitativa clássica dos "puros fluxos" como o seu resgate radicalizado de "puro estoque" são soluções de canto, sem força maior. Nem mesmo o híbrido keynesiano é uma boa combinação a seu ver. Sua construção se deu num contexto de refutação da teoria clássica dos fundos emprestáveis e da experiência catastrófica do mercado acionário de sua época, logo antes da publicação da Teoria Geral. Noutros termos, os requisitos históricos institucionais tão ciosamente apreciados por Chick, ficam de certo modo deslocados pela necessidade de soluções pragmáticas, criadas para  atender os imperativos da hora. Desta forma, o finance motive - fundo rotativo de ativos líquidos que é providenciado pelo sistema à economia- e outros conceitos fundamentais para a compreensão e integração do financiamento macroeconômico surge nos debates com Ohlin, o qual chama atenção para esta dimensão inconclusa da teoria de Keynes, o qual insere o já supracitado motivo à teoria da preferência pela liquidez. Todavia, este último não se confunde com poupança-ex ante. 

Para concluir, cabe então considerar o que a própria Chick vem trazendo para a sua fronteira de pesquisa como metodóloga.  A idéia de "sistema aberto" é extremamente oportuna quando a maioria do conhecimento econômico se faz sob a égide dos "sistemas fechados". A Teoria Geral seria uma experiência que trouxe a macroeconomia à luz por ter esta virtude. São os sistemas  abertos que possibilitam a influência da história, sempre um fechamento  parcial e provisório. Desta  forma, uma teoria pertinente na compreensão dos fenômenos advindos com a revolução industrial perderá sua acuidade na explicação atual de processos que se desenvolvem sob o capitalismo globalizado  e comandado pela lógica  financeira. 

Só nos resta desejar boa leitura!

Segue um Link para o artigo "Sobre Sistemas Abertos" publicado na Revista da Sociedade  Brasileira de Economia Política, Rio de Janeiro, nº 13, p. 7-26, dezembro 2003. 


domingo, 26 de dezembro de 2010

Lançamento do Blog "Economia Monetária - Moeda e Acumulação Financeira"

Olá pessoal,


Este é um Blog com o qual pretendemos estabelecer um diálogo acadêmico através das disciplinas que ministramos na Universidade. Ele parte de uma constatação e de uma idéia. Pudemos notar ao longo do último semestre que os estudantes da nova geração utilizam e produzem muito com as novas ferramentas midiáticas que estão disponíveis na atualidade. A leitura nas telas e as imagens disponíveis são instrumentos preciosos na comunicação atual. Outro fato é que o uso de blogs é parte didático-padagógica da sistematização de conteúdos em disciplinas na graduação e pós-graduação, como sugeriu-me o Prof. Gildásio Santana, também tutor do PET Ciências econômicas da UESB.

No curso dos semestres passados notou-se também que o emprego de linguagens e exposições que ultrapassam a transmissão expositiva e incitam a interação reflexiva dos estudantes é extremamente válida, permitindo superar bloqueios e incompreensões que amiúde surgem nas quatro paredes de sala de aula noturna uefsiana. Alí, o Nosferatu melancólico reaparece muitas vezes, espectral, no estado de vigília dos sonolentos, tremendo na penumbra do candeeiro ou nas imagens retro-projetadas nas paredes pelo velho docente de Bram Stoker que faz regressar as formas arcaicas do passado na temporalidade presente.


Muitos estudantes jovens são ainda assomados pelas “mulas-sem-cabeça” das idéias pré-concebidas que lhes são perpetradas como novidades e que não passam de “relíquias bárbaras” como era o padrão-ouro lá nos anos 30 do século passado. Ou como disse Keynes na Teoria Geral, à propósito de economistas “almas-penadas” que aconselhavam governos com a sábia lábia de moedeiros falsos: “as idéias dos economistas e filósofos políticos, estejam eles certos ou errados, têm mais poder do que se costuma imaginar. Na verdade, quase nada além delas governa o mundo. Os homens práticos, que se crêem livres de influências intelectuais, freqüentemente são os escravos de economistas defuntos e escrevinhadores acadêmicos. Loucos no poder, que ouvem vozes no espaço, destilam sua loucura de algum escrevinhador acadêmico de alguns anos antes”.

Como “postagem inaugural” do Blog passamos para todos um filmeto sobre a peleja histórica Hayek versus Keynes, o Fear the Boom and Bust (Tenha medo da  Expansão e da Recessão), um vídeo do YouTube produzido por John Papola e pelo economista Russ Roberts, num estilo rap. Deixadas à parte a construção francamente “síntese neoclássica” à la Samuelson do Keynes apresentado, o vídeo é provocativo e traz na verbalização de Hayek um esboço hip-hop da teoria austríaca dos ciclos econômicos. Esperemos assim que ao menos uma discussão seja reacendida e que a velha tradição do ciclo keynesiana seja considerada pelos estudantes. 

Saudações,

Prof. Ricardo Caffé

Sobre o ciclo em Keynes, ver um interessante texto de Antonio Barros de Castro na revista Pesquisa e Planejamento Econômico do IPEA através do link abaixo:

http://ppe.ipea.gov.br/index.php/ppe/article/viewFile/1034/973 

Vídeo Fear the Boom and Bust - Haeyk contra Keynes